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Recentemente assisti ao filme Refém da Paixão e uma frase ficou comigo depois que a história terminou:
“Eu cresci achando que minha mãe não era capaz. Mas ela era.”
Essa fala me fez pensar em quantos olhares recebemos ao longo da vida e em como eles influenciam a forma como enxergamos as pessoas e a nós mesmos.
O filho da história passou anos acreditando que sua mãe era frágil, dependente e incapaz de conduzir a própria vida. Somente mais tarde ele conseguiu perceber que havia muito mais nela do que aquilo que ele havia aprendido a enxergar.
E talvez isso aconteça com todos nós.
Na Terapia do Esquema, entendemos que nossas experiências emocionais precoces ajudam a construir significados profundos sobre quem somos, sobre os outros e sobre o mundo. Essas experiências dão origem aos esquemas iniciais desadaptativos: padrões compostos por memórias, emoções, sensações corporais e crenças que carregamos ao longo da vida.
Quando crescemos em ambientes marcados por rejeição, críticas constantes, abandono, negligência emocional, superproteção ou instabilidade, podemos desenvolver esquemas que nos fazem acreditar que somos incapazes, inadequados, frágeis, diferentes dos outros ou destinados a sermos abandonados.
Com o passar do tempo, essas crenças podem parecer verdades absolutas.
Mas nem sempre são.
Muitas vezes, não reagimos apenas ao que está acontecendo no presente. Reagimos aos significados que construímos ao longo da vida sobre nós mesmos e sobre as pessoas que amamos.
Quando um esquema é ativado, sentimentos familiares aparecem. Medo, vergonha, solidão, inadequação, insegurança. Para lidar com essas dores, desenvolvemos estratégias de enfrentamento.
Algumas pessoas se rendem ao esquema. Outras evitam sentir a dor. Outras tentam compensá-la de diferentes formas.
Por isso, muitas vezes, aquilo que enxergamos como comportamento é apenas a parte visível de uma história emocional muito mais profunda.
Foi isso que me tocou no filme.
O filho precisou rever a imagem que carregava sobre sua mãe. Precisou abandonar uma verdade que o acompanhou por muitos anos para enxergar uma realidade mais ampla.
Na psicoterapia, esse processo acontece com frequência.
Muitas pessoas chegam acreditando que são incapazes, fracas ou insuficientes. Não porque essas características definam quem elas são, mas porque viveram experiências que contribuíram para a construção desses significados.
O trabalho terapêutico não consiste apenas em compreender a dor.
Consiste também em olhar para a história por trás dela, entender como esses esquemas foram construídos, fortalecer o lado saudável e ampliar a capacidade de fazer escolhas mais coerentes com a vida que a pessoa deseja viver.
Talvez uma das experiências mais transformadoras da psicoterapia seja perceber que nem tudo aquilo que aprendemos a acreditar sobre nós mesmos corresponde à realidade.
Existem olhares que nos limitam.
Mas também existem olhares que nos ajudam a reconhecer capacidades que havíamos esquecido ou que talvez nunca tivéssemos percebido.
E, às vezes, a maior transformação acontece justamente quando conseguimos olhar para nós mesmos de uma forma nova.
Com mais compreensão.
Com mais humanidade.
E com a possibilidade de escrever uma história diferente daquela que acreditávamos estar destinada a viver.
Natália Vargas Filomeno — Psicóloga em Porto Alegre. Atendimento com Terapia do Esquema para adultos, luto e terapia de casal, presencial na Tristeza e Moinhos de Vento e online.



